Sem título 4

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Eu achava era graça de quando eu, espevitada, começava a dar meus escândalos por achar alguma coisa bonita e você, tentando parecer sério dizia "quieta o faixo, menina".

Eu achava era graça quando você passava pela sala e satirizava os filmes que eu tando amava. Eu brigava, mas por dentro eu ria.

Eu morria de rir quando você gritava pela bola que nem perto da rede do Bahia passou e me culpava dizendo que "torcedora do Vitória por perto dá azar".

Eu morria de rir quando você reclamava da quantidade de trabalho que lhe davam e depois dizia entender "por que sendo um funcionário tão bom, é natural receber responsabilidades".

Eu não aguentava o riso quando você elogiava com ironia a vizinha que, com suas roupas curtas, mostrando o que não devia, pensava estar linda.

Eu não aguentava o choro quando você viajava.
Eu não aguentava o choro quando você chegava irritado e não queria me contar o que aconteceu, 'pra não me preocupar'.
Eu não aguentava o choro quando você, escondido no escuro do nosso quarto, via fotos da sua falecida mãe.
Eu não aguentava o choro quando você olhava as crianças brincando no parque, triste, por que eu não podia lhe dar teu filho.

Mas, mais do que tudo isso, eu não posso aguentar a vida sem você.
Desculpa, mas tenho que ir.
Ir pra longe dessa vida.

um poema em pausas.

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estou me rasgando.
é aquela velha melancolia.
guardada. grudada.
mas hoje eu não quero chorar.

tinta

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eu ouvi enquanto escrevia: Malu 4x4, do Marcelo Camelo


Ele afundou a mão direita no balde de tinta vermelha. O vermelho vivo escorria pelos seus braços. Desceu o indicador pelas costas dela. Ela estava nua. Ele também. Não se importavam. A mão dele escorreu até a barriga dela. Ela arrepiou. Abraçou-a. Subiu aos seios. Ela mordeu os lábios.

E ele afundou a mão esquerda no balde de azul marinho. O vermelho se misturou com azul. Violeta. Seus dedos finos e longos caminhavam pela pele da moça. Limpou o suor da testa. Seus cabelos castanhos foram tingidos pelo azul. A barba pelo violeta. Desceu às pernas. Pegou um pouco mais de vermelho. Uma textura ondulada começou a se formar em suas vértebras torácicas. Limpou a mão esquerda na parte interna da coxa dela. Afundou a ponta dos dedos na tinta verde. Pontuou sua lombar. E foi caminhando lentamente até sua virilha. Ela estremeceu. Soprou em seus ouvidos. 'Calma. Não terminei.'

Pegou o pincel stroke, o de cerdas longas e macias. Passou na aquarela sobre a mesa. O amarelo. E tracejou suas vertebras. Uma por uma. Com um branco neve, desenhou reticências. Pintou os lábios de bordô. Beijou-lhe a nuca. Virou-a. Sorriu, com seus lábios bordô. Ela sorriu em resposta. Beijou-lhe o colo, os seios e o ventre. Depois levantou.
 Já era a hora de borrar o desenho.