Noite na Taverna, Álvares de Azevedo

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Capítulo II - Solferi
Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se fazias ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. — A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém — saiu. Eu segui-a.

Mas não

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- Olha, eu só tô ligando pra dizer que eu não me arrependo de nada do que eu disse ontem. E que realmente acho que seri melhor cada um seguir seu próprio caminho.

Foi assim que ela arrasou meu coração. Esmagando a frágil esperança de que naquela ligação ela dissesse para esquecer a briga, dissesse que me amava que me queria de volta. Mas ela não disse.

Ela terminou dizendo que ia dar um tempo pra eu me recuperar e depois ia buscar as coisas em nossa casa no Rio Vermelho. Ela disse que ia voltar para o apartamento no Imbuí. Ela disse que tudo ia ficar bem. Mas eu não acreditei em nada do que ela disse, por que ela disse que me amava.

Eu quis xinga-la de todos os nomes possíveis. Eu quis chamá-la de mentirosa. Quis perguntar o que aquele ser frio tinha feito com minha noiva. Quis implorar perdão, que me perdoasse pelo erro que ela cometeu. Quis mata-la. Quis pelo menos bater o telefone. Mas não fiz nada disso. Assenti, e esperei ela desligar.

Ela veio, uma semana depois. Bateu na porta, disse que tinha perdido a chave. Parado à porta do quarto, me senti mas um móvel ao vê-la arrumar as coisas. Ela, concentrada em juntar tudo que havia comprado do próprio bolso, sequer olhou meu rosto. Nem sequer viu meu desespero mal contido nos olhos marejados. Meus olhos que quase gritavam o grito que a garganta, doída, não tinha mais forças pra deixar sair. O grito que dizia: 'não me abandone!' Mas não gritei.

Ela se foi. E já fazem dois meses que vivo de pão, chocolate, vodka e rum. Mas não morri. Ainda.