invisibilidade

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eu tiro fotos que ninguém vê,
eu canto músicas que ninguém ouve,
eu escrevo livros que ninguém lê,
eu sinto coisas que ninguém sente,

eu ando, como, vejo, toco,
mas ninguém vê,
ninguém sabe, ninguém percebe,
na minha invisibilidade eu enxergo o mundo.

no meu olhar ele se colore,
se reforma, se transforma, se multiplica,
e quando as cores refletirem nos olhos de seus moradores,
minha felicidade estará completa,
e terei cores em mim novamente.

essa menina e o moço.

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nem bem acabou a noite e essa menina já foi pra varanda. O sol ainda nem raiou e já está com essa xícara na mão. O moço, ainda sem camisa, aparece na porta.
– Mas já tão cedo?
Ela ri. E o moço coça a cabeça, ri e volta pra cama.
– que moça foi essa que eu achei.
O sol já está nascendo. Essa menina o observa, atentamente. Com lágrimas nos olhos vê os raios amarelos rasgarem o horizonte, invadindo a imensidão até então escurecida. É hora de entrar, essa menina. O moço já tá fazendo novo café. Um abraço. Um carinho. Um beijo de tirar o folêgo. E ligam o chuveiro.
Esse moço tem que trabalhar. Nem bem ele coloca as lentes na mochila e essa menina pula nas costas dele.
– Tire uma foto minha!
Mais um beijo. Sorrisos. O moço vai trabalhar.
Ele se vai. Ela fica. E põe as telas na varanda. Uma caixa. Caixa não, um baú! Um baú de cores em potes de tintas. Um arco-íris pronto para atacar a limpa e inocente tela em branco. E essa menina brinca. E como brinca. Pinta mais a si que a branca tela. E com esse arco-iris nas mãos, no sorriso e nos olhos, vai atender a porta.
– Entrega.
– Pois sim.
– São seus esses livros?
– São sim.
– Assine.
– Pois não.
Um Chico Buarque, uma Nara Leão e mais um monte de gente sussurando suas poesias para essa menina. E essa menina vai escrever suas próprias poesias. Seus textos, romances, suas crônicas, seus versos.
E volta o moço. Essa menina escrevia sentada na varanda. Esse moço, pra não atrapalhar, passa na ponta dos pés. Na ponta dos pés, como vivem a vida. As cores, a tinta, a arte e a poesia. E a fotografia, o mundo em doces lágrimas, sorrisos e um querer maior que o mundo todo.
Essa menina e o moço não sabem, nem nunca devem saber. Mas esse amor de poesia, essa arte bem contada é o que lhes põe de pé. O mundo parece muito. e muito parece palpável. E a vida é mais e mais, muito mais do que poderiam esperar.

Cansado, o sol vê as horas.
– Tenho de ir, – diz o sol.
E a essa menina tambem tem de ir. Dormir. Por que a aurora do dia que vem a espera. E dormem, vendo as estrelas, e contando, uma por uma, como meninas brilhando no céu.