Depois, o nada - Para o Nicolas

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Estou tremendo
Onde você está?
Onde que não me chama?
Onde que não escuta meus gritos?

Não te vejo
Vejo a tempestade
o sangue
a lama
Beijos seus lábios,
mas
não sinto

Dias se passaram sem que eu os pudesse ver
E à noite,
ando sozinho através dos espinhos
errante,
bêbado
e nu

Voltaram a devorar-me
As raposas,
tigres e leopardos
rasgam minha carne
Arrancam cada pedacinho que há de você em mim
mas não posso morrer

Embora minhas veias e artérias apertem a garganta
e o rins entrem em colapso
mesmo quando meus pulmões se afogarem no sangue
seguirei sendo o mesmo
O mesmo lobo apaixonado.

Por não ter o que fazer

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Estou aqui.
Estou cansada de tanto tédio.
Estou escrevendo tudo que deveria estar falando.
Estou jogando bolinhas de papel no asfalto
dizendo a todos que passam em frente a varanda:
qual é o seu problema?
E eles me contam,
por que também não tem o que fazer
Por não ter o que fazer faço o que não devia,
fuço o que não devia,
como o que não devia,
quem não devia.
Beijo o que não devia,
Em cada brejo que nem devia conhecer.
Os sapos beijam de língua,
na esperança de ganhar coroa.
E no derradeiro dia,
esperarei a morte na cadeira de balanço.
Vendo da varanda a chuva que cai,
que cai sobre os morangos, já quase maduros,
Sinto o cheiro da estação.
Em casa, o pó. Na cadeira, eu... e mais pó.
Por não ter o que fazer, leio o que eu escrevi.
Sorrio a toa e choro com filmes.
Por não ter o que fazer,
tento te esquecer,
E tento não lembrar que ainda te amo,
tanto quanto amava no dia de sua morte.

Da minha menina

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- Imagina que eu andei a sua procura, meu rapaz!
Ele sorriu. Era mentira, de fato. Mas quê custava acreditar? Era uma mentira tão bonita...
Fitara o relógio por toda manhã. Era o mesmo que dormir, mas isso não interessa. Importante é dizer que na noite anterior, ele havia revirado toda aquela cidade, me buscando em todas as ruelas, indo até os bares mais sórdidos - e olhando até debaixo dos balcões - com a estúpida esperança de que iria me encontrar. É, um tolo, não é mesmo?
Esse meu rapaz, ele trabalha pela manhã, como pedreiro. À tarde, ele entra naquele cubículo que chama de apartamento, senta naquela imundice que chama de chão e pinta aquelas coisas bonitas, como é mesmo o nome? Oh, sim, são as telas.
- Como você consegue ser tão bruto e tão sensível? - perguntei-lhe certa vez, mas ele não me ouviu. Continuou pintando, como se aquilo fosse uma resposta.
Creio que ele nunca tenha visto meus lábios se moverem. Nem sequer uma vez. Aquilo me irritava profundamente, mas, era bonito vê-lo com seus olhos escuros, concentrado, as mãos... Ah, esse é um detalhe importante. Os calos das suas mãos pareciam sumir, quando empunhava um pincel, ou quando pintava com os dedos mesmo. - É truque? Você foi mágico? - perguntei. E ele fez o truque, largou o pincel e eu vi a mão do pedreiro, retomou o pincel e eu vi a mão do artista.
Eu sabia que tinha uma janela atrás de mim. Podia sentir o sol bater, sempre que ele chegava em casa. Podia sentir um vento gelado, quando ele bocejava. Era o dia e a noite, vim a aprender, tempo depois.
Ele falava muito sobre alguém chamado, han... Dinheiro! Sim, este. Era ele quem dava as telas, mas acho que esse Dinheiro não quis mais dar telas ao meu rapaz...Ele ficava nervoso, quebrava tudo ao nosso redor. Mas não tocava um dedo em mim. Às vezes eu quase implorava para que ele o fizesse, como que para que ele se sentisse, melhor, eu não sei...
Em algum momento, algo mudou. Não sei dizer quando, mas eu via lágrimas saírem dos seus olhos, cada vez com mais frequência. Às vezes, quando o sol batia, às vezes quando sentia o vento gelado, lá estava ele, com suas bochechas molhadas. Que poderia eu dizer? Ele não queria me ver mais, nem nunca me escutara. Foi assim que resolvi deixá-lo. Eu já não tinha serventia dentro daquele... como é mesmo o nome? Apartamento! As mãos dele não me queriam mais,pois então, eu fui.
- Ei, Marcos, cadê aquele rosto que você pintava em todas as suas telas? - era uma voz feminina. Ela estava em pé em frente às telas mais recentes do meu rapaz. Ele não respondeu. Mas eu sabia que tinha ouvido a voz feminina por que ele olhou pra ela, sem expressão alguma. Assim, como ele costumava me ver, com os olhos semicerrados, protegendo-se do sol, ou enquanto esfregava as mãos uma na outra, para abrandar o frio. Ah, mas eu não deveria estar ali! Não acabei de lhe dizer que tinha fugido? Pois, é verdade, eu fugi, mas tinha que vê-lo, vez ou outra, assim, às escondidas. Vai que era eu quem o fazia chorar?
Ele tirou a roupa da voz feminina e levou-a pro quarto. E eu escutei a voz dele, misturada na voz feminina.
Creio que não fora uma noite agradável por que, foi na noite seguinte que ele resolvera pôr as ruas e avenidas de cabeça pra baixo, chamando por mim. Ao contrário do meu rosto, o da voz feminina se movia, lânguida e sensualmente. Acho que ele não gostou. Mas eu podia jurar que era mais bonito ver os olhos piscando e os lábios se movendo, assim como eu via o meu rapaz! O que ele queria? Uma expressão parada no tempo, como a minha?
Sendo assim, fui ao seu encontro, no cubículo, digo, apartamento. E ele me pareceu feliz, quando eu disse que procurava por ele. Acreditar? Não, ele não acreditou. Mas sorriu, era o que importava pra mim, ver o seu rosto em movimento, enquanto eu deitava meu rosto estático sobre aquela coisa, coisinha interessante, aquela, como é mesmo o nome? Tela! Sim, eu deitava meu rosto sobre a tela e ficava à mercê dos seus pincéis.

Dela

Entardecer

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Se todos os mares fossem como os teus.
Ah, se todas as ondas brilhassem como as tuas.
Teu balanço, teu descanço,
no amanhecer e quando a noite vem.

Majestosa serenidade no crescer de tuas marés.
O verde de teu gramado
a refletir nos coqueirais.

Não, não quero me banhar.
Quero saborear-te
intocada.
Resplandecente virgem
no balanço que recai sobre tuas pedras imóveis

Menina dos olhos meus,
Nem o mais hábil dos poetas lhe faria justiça.
Por que não há justiça em tanta beleza,
beleza que não se pode ter.
És minha princesa, mas nunca será de ninguém

Encontrei-te em meu desespero,
e me deste paz.
No teu caos, me deste calma.
Na tua calma, me fez sorrir.

Doce entardecer nos olhos teus.
Do dourado, do azul, do roxo e do majestoso.
Morrer de admira-te.
E depois, nada mais poder olhar.
Cegado pela magia das curvas do teu corpo.

Envelhecer

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- Sabe, acho que eu tenho um pouco de medo disso...
- Disso o que?
- Envelhecer.
- Entendo.
- Quando as pequenas coisas se tornam grandes realizações e o que, na juventude, parecia ser de grande valia, perde a importância...
- Amedrontador. Pior é ser real.
- É envelhecer ou morrer. O que você escolhe?