Pedra atirada

Tudo ao nosso redor, e até aquilo que não nos rodeia, pode mudar nossa vida para sempre. Como aquela velha pedra cor de grafite. Quem diria a levaria pra todos aqueles caminhos....

Era uma tarde ensolarada de uma segunda-feira qualquer. Saber qual segunda é irrelevante, então voltemos ao ônibus. Ela tinha pegado o coletivo para voltar para casa. Sorria, sua vida estava tão linda. Seu noivo a amava de verdade, o tão esperado filho estava por vir, e sua irmã, que antes era a raiz de tanto desgosto, para se casar em um mês. Alias, sabe o tecido que tinha ido comprar? O azul que estava nas mãos dela, lembra? Era para o vestido que ia usar no casamento da irmã.

Reparou que o motorista estava indo bem rápido. ‘Talvez tenha um horário a cumprir’, pensou. Tanto que numa certa curva, até se assustou um pouco com a virada brusca. Mas nem isso a preocupava. Se bem que a pedra a deixou confusa. De repente o ônibus começou a tombar para os lados, a acelerar continuamente... ‘Oh meu Deus, pare motorista, pare agora!’. E ele não obedecia. O ônibus tombava andava, era iminente a colisão. Um rapaz, que aparentava ter uns vinte e cinco anos levantou-se e foi até a frente do ônibus. ‘Corram para o fundo rápido, ele está morto!’ Mas já era tarde. Ele gritou a dois metros do muro de concreto. Nem ele mesmo conseguiu se salvar.

Abria lentamente os olhos. O branco do lugar ofuscava seus belos olhos verdes. Seu rosto revelava todas as costumeiras perguntas que desejava fazer. Se ao menos sua voz conseguisse achar o caminho da garganta. E como doía respirar, sentia como se houvesse vidro em todo seu corpo. Mas, espera talvez houvesse, os flashes começavam a girar em sua mente: a pedra, o rapaz assustado, os gritos, o muro. Gritou. Muito e muito alto. Então sentiu doces mãos lhe acariciarem o rosto. ‘Calma querida, tudo já passou, você está bem agora. Em boas mãos... Em boas mãos’. Então foi se acalmando lentamente. Arqueando as sobrancelhas e levando o rosto levando levemente o rosto para trás, movimento este que lhe rendeu muitas dores, perguntou com quem falava. Era a enfermeira, que calmamente lhe explicou, que sua família estava do lado de fora do quarto, por questões médicas, mas que logo poderiam entrar. Algo a incomodava. Eram os tais pedacinhos de vidro que sentia, provocavam uma dor infernal a cada movimento.

Um comentário:

Leon K. Nunes disse...

Essas experiências traumáticas devem render muitas coisas, para o bem e para o mal. Particularmente, nos acidentes em que me envolvi, nunca me vi em condição de tamanha vunlerabilidade depois, então tudo o que leio sobre tem um ar de "teoria". Gostei do conto, deu para sentir os dois momentos de tensão: no ônibus, em alta velocidade e sobre solavancos descontrolados, e no hospital, sem a condição de sequer conseguir se comunicar...

Não deveria ter deletado o outro blog, já que gostava de moda. Era legal, demonstrava autenticidade.

Até logo mais.